A costureira de Khair Khana

2 de fevereiro de 2014

A jornalista Gayle Tzemach Lemmon tem se dedicado a escrever sobre perfis de mulheres empreendedoras em áreas de conflito extremo, como o Afeganistão. Para compor seu livro A costureira de Khair Khana, publicado pela Editora Seoman, a jornalista passou três anos realizando entrevistas em profundidade para descrever a vida de Kamila Sidiqi, uma mulher à frente do seu tempo que, silenciosamente, conseguiu não apenas sustentar sua numerosa família como também mudar a vida das mulheres de sua comunidade.

Sob o regime talibã, as mulheres passaram a viver rigorosamente confinadas em suas próprias casas sob a vigilância ferrenha dos seus maridos. A situação piorava quando os provedores da família tinham que refugiar-se em países vizinhos de modo que o sustento da família tornava-se uma responsabilidade feminina. Mas como sair de casa para trabalhar em um país onde as mulheres não são livres para ir e vir, sem a companhia de um mahram (um parente masculino), ainda que o motivo seja trabalho?

Este é o contexto da história de Kamila Sidiqi. A jovem professora - que não pôde mais lecionar, pois as escolas foram totalmente destruídas pela nova ordem social - tornara-se a provedora de sua família por ser a mais velha das cinco irmãs. Os homens da casa tiveram que refugiar-se no Paquistão para não serem executados pelos talibãs. Foi, então, que Kamila teve a ideia de montar um ateliê de costura em sua própria casa para que ela e as irmãs pudessem confeccionar roupas e vendê-las aos comerciantes locais.

Com coragem e determinação, contando com a ajuda do irmão mais novo - Rahim, seu mahram, Kamila andava pelos centros comerciais de Cabul, comprando tecidos e aviamentos para abastecer o estoque de seu negócio e, também, negociando com os comerciantes o fornecimento, sob encomenda, de roupas masculinas e femininas. As demais irmãs, que sabiam costurar, ficaram responsáveis pela produção das peças. Com a conquista do mercado, elas já não conseguiam mais dar conta do recado. Kamila, então, teve outra ideia.

Se o ateliê mudara a rotina das mulheres da família Sidiqi, por que não mudar também a das demais mulheres da comunidade? O ateliê tornara-se uma escola de costura gratuita. Discretamente, com horário agendado - para não chamar atenção das rondas talibãs, as alunas aprendiam um ofício gratuitamente, mas como contrapartida, ajudariam na produção do ateliê. Assim, as irmãs conseguiriam, em tempo hábil, atender aos clientes que estavam cada vez mais exigentes.

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Comentário: "A história do Afeganistão e de sua gente sempre me comove, por ser tão inacreditável tudo o que lá acontece. Este livro, um dos melhores que já li sobre o país, foi lido rapidamente. O texto de Gayle é muito suave e nos coloca dentro dos ambientes nos quais se passam a vida das personagens – que são reais, mas que parecem ter sido criadas para um romance histórico, no qual Kamila é a heroína. De fato, ela é sim uma heroína. Ela foi capaz de mudar a vida de tantas mulheres da comunidade de Khair Khana. Mesmo que corresse o perigo de morte em suas formas mais brutais – como as praticadas pelo talibã".

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Caros leitores, eu publiquei este texto, inicialmente, no Blog Leitura do Momento. Convido-lhes a fazer uma visitinha por lá também. A leitura é minha outra paixão.

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